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ARTMAG - DIONÍSIO


A vídeoperformance ''Dionísio'' pode ser considerada um retrato do surgimento do teatro na Grécia antiga. A cena revive ,de forma hipotética, o momento em que Téspis se autoproclama como o Deus do vinho. A emblemática frase ‘’Eu sou Dionísio’’ que atribuiu a ele o título de ''primeiro ator'' devido a sua forma revolucionária de contar a história de Dionísio. E que traria o conceito de interpretação que seria utilizada nas tragédias que viriam a nascer naquela civilização tempos mais tarde até os dias atuais.

Ao mesmo tempo que busco o recorte histórico também sigo a recriar dentro da película esse apanhado do teatro ritualístico que funde a arte e o sagrado.

  Não por acaso, Nietzsche coloca como questão metafísica, a definição de arte coincidindo com o sentido da vida, chamando de “impulsos artísticos da natureza”; o apolíneo e o dionisíaco. Sob o mundo da aparência, da beleza e das formas está Dionísio (o êxtase), Deus do caos e da noite. Nascido da fome e da dor, perseguido por deuses hostis, ele renasce a cada primavera, criando e espalhando alegria.

A obra que busca reviver e recontar a história do surgimento do teatro também se debruça em outros questionamentos com o público, ao traduzir ‘’O Hino Órfico a Dionísio’’ do grego antigo para o português, brasileiro, como: ''De que outras formas o teatro surge em outras civilizações?'' Seja ele Oriental junto ao teatro das sombras ou até mesmo dentro de uma perspectiva indígena. São questões que eu gostaria de explorar em outras obras e que foram abordadas com o público após a exibição da videoperformance a fim de um maior entendimento da obra tal como os questionamentos, de até onde a influência desse surgimento impactou nossa sociedade hoje.

Tanto no fazer teatral como também no próprio retrato da sociedade que cada obra imprime mediante a época na qual foi construída. Interpretar é criar. Existir é criar. Pensar é criar e dar. Criamos o mundo; criamos as coisas, como valores. Na filosofia de Nietzsche, a ideia central de valor aparece associada à existência.

A dramatização teatral foi a principal ferramenta de filósofos e autores para difundir seus pensamentos e se fazer entendido pelas massas. A catarse provocada em Édipo-Rei, por exemplo, promove uma experiência de culpa, sentimentos de terror e piedade, promovendo uma espécie de identificação emocional. E isso foi fundamental para a criação de valores, indo na contramão da naturalização da barbárie e como diria Augusto Boal: ‘’Todo teatro é político’’. 

Curiosamente o início dessa pesquisa se deu durante a pandemia, onde tive minha primeira embriaguez por vinho, claro. Durante muito tempo foi um solo, onde criei a partitura corporal e normalmente além do texto traduzido acompanhava a performance com fogo. Um álbum que eu explorei muito na criação de toda concepção da narrativa foi o ‘’Dionysus’’ da banda Dead Can Dance. Esse número teve pelo menos quatro anos de pesquisa e investigação e por fim a videoperformance ganhou o corpo de baile e um registro da figura de Dionísio, as máscaras da comédia dell'arte que ilustram um vislumbre do que estava por vir na história do teatro, representada pelos bacantes (dançarinos), além de todo o cenário, gravado na praia de Itapebussus em Rio das Ostras.

Quase toda filmagem teve mais de um take gravado, a não ser a cena final, até porque era vinho mesmo e o figurino era apenas aquele… e felizmente aquele momento saiu como o esperado, eu confesso que a ardência nos olhos só veio depois, naquela hora da cena eu me senti tão tocado, que de fato percebi que eu estava balançando, como  num transe. Foi um momento mágico e pra mim foi extremamente simbólico. 

Representar aquele que deu origem ao que hoje é meu ofício, oferecer meu corpo e meu trabalho pra essa missão que integra inúmeras camadas… foi de fato um prazer, um êxtase, que eu pretendo seguir aprofundando e reinventando ao longo da minha carreira. Segui o impulso da minha natureza e assim nasce o meu Dionísio, e do ‘’Evoé’’ se evoca a ‘’Evoéra’’


(Coluna Jardim Encantado, por Ronald D’Lanor — publicada mensalmente, sempre no último sábado ou dia do mês, trazendo novos capítulos do Ensaio sobre Artemagia.)

 
 
 

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