top of page

ARTEMAG - DEP.

Atualizado: 31 de mar.


Depoimento


Continuando e encerrando o tópico com minha referência mais próxima e amiga íntima, Ketlyn Oliveira, o que já abre margem para meu depoimento e vivência em artemagia.  

Nossa relação se deu inicialmente com uma despretensiosa parceria em alguns projetos em que eu era seu modelo/tela viva para suas maquiagens artísticas e a partir daí começamos a trocar ideias mais a fundo sobre o mundo da arte, da magia e suas interseções. Lembro que nesse período a ‘’tecnologia de encanto’’ dela que me deixou enfeitiçado foi sua manipulação com fogo, através de swing fire. Tempos mais tarde também comecei a manipular fogo, mas através de uma outra tutoria e o instrumento que utilizo são bastões.

Ketlyn Oliveira, pesquisadora de arte como intersecção ao divino, desenvolve proposições estéticas, cênicas em intervenções urbanas provocando estesia na contemplação do ícone sacro que é construído e representado na prática de estátua viva. Ketlyn é formada em arte, especialista em Arteterapia, e já promoveu várias oficinas de artesanato em torno da criação de objetos energéticos. Na sua visão e investidas artísticas sempre foi atravessada pela estética e as artes da cena. Hoje concilia seus diversos saberes na construção iconográfica, transformando o fazer artístico em uma prática sagrada.

E claro que eu poderia também citar dentro do meu depoimento a minha ancestralidade espiritualista, os milagres concedidos a minha família e nossa experiência de quase morte coletiva. O que de fato é intrigante e curioso. (Eu até cheguei a escrever boa parte disso aqui, mas relendo achei que desviou um pouco do foco, então pros curiosos de plantão vão ter que aguardar a autobiografia, pois a ideia aqui não é promover nem descredibilizar a fé ou qualquer religião, as pautas sequer passam por esse viés). Apesar de que, enquanto fato histórico e social, apresente sim alguma relevância. E principalmente pro que eu venho chamando de foco aqui: o sentido artístico/filosófico desse conceito que venho contribuindo e experimentando.  

Natural de Itaperuna - RJ, minha infância foi mágica repleta de arte, pelo qual tive o privilégio de ser introduzido desde muito novo nas artes cênicas, dança e canto coral. Aos dez anos de idade eu me mudei para Rio das Ostras - RJ o que de início não me animava em nada, afinal eu só conseguia ver que estaria distante do amor da minha vida, minha avó materna, Maria das Graças, (vulgo Vó Gracinha). Desde então comecei a escrever cartas para aliviar tamanha saudade, cartas que viraram poesia. E com o passar do tempo a poesia virou música, a música virou dança, e toda arte que pudesse representar minha dor, minha alegria, minha angústia, minha euforia eu abracei. 

Por essa e tantas outras experiências, posso afirmar sem medo que a arte é mágica, pois desempenha um papel vital na vida, na carência e na potência de qualquer sujeito. Seja no campo afetivo, psíquico, físico, social… Por cada canto que olhamos podemos ver uma expressão de vida oriunda de uma uma provocação ou investigação artística. E isso é mágico. 

Boa parte das religiões sabem muito bem disso, e apesar de ter vivido ótimas vivências em meio a fé cristã na qual fui inserido desde muito novo, por influência familiar, eu não poderia admitir ver questões políticas completamente deturpadas sendo proferidas no que chamavam de ‘’templo’’ como algo comum. Logo me escandalizei com aquilo e no meu jovem íntimo algo se rompeu. Naquela altura da minha adolescência, a minha religião já era o teatro. 

Uma grande ironia foi que em meio a essa fase bifurcada da minha vida, dois grandes eventos dos dois lados aconteciam. De um lado, na minha atual cidade, a culminância do primeiro festival de teatro em que eu havia participado, e do outro, a jornada mundial da juventude no Rio de Janeiro, evento pelo qual meus pais já haviam pago o pacote completo. Logo vocês já podem imaginar para qual evento eu fui… Mas eu acredito que esse desencontro com o que sem dúvidas seria o meu melhor destino, me motivou na criação do meu primeiro projeto audiovisual, Dionísio, afinal eu vi o papa passando no papamóvel na minha frente e vivenciei sua missa, mas por outro lado, eu perdi um ‘’rito secreto de batismo/iniciação teatral’’ que acontece na festa final do festival de teatro.

Eu nunca consegui deixar de imaginar o que seria esse evento, essa festa dionisíaca, esse rito de passagem pelo qual meu novo eu queria mais do que tudo estar presente, mas que não foi possível. Toda essa falta, depois de alguns anos, seria transformada em uma performance multilinguística que representaria meu próprio ritual, recontar a história do teatro, oferecendo meu corpo pra esse batismo em vinho, foi meu primeiro voto público em devoção à artemagia.


(Coluna Jardim Encantado, por Ronald D’Lanor — publicada mensalmente, sempre no último sábado, trazendo novos capítulos do Ensaio sobre Artemagia.)

 
 
 

Comentários


bottom of page